Gabriel Pereira
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21 de setembro de 2020 · 9 min de leitura

Os desafios de planejar para a Longevidade

Você está se preparando para uma vida longeva? Já parou para pensar que é provável que viva até os seus 100 anos? Está construindo e cuidando dos ativos necessários para esta fase de vida?

Seja onde for que você viva, e seja qual for a sua idade, você precisa começar a pensar desde já sobre como irá se preparar para essa vida mais longa.

Em média, nossos pais viveram mais que nossos avós, nós viveremos mais que nossos pais e nossos filhos viverão ainda mais. Segundo IBGE, a expectativa de vida vem crescendo em uma taxa de mais de 3 anos a cada década. Em 1940 a expectativa de vida média ao nascer era de 45,5 anos e em 2018 estava em 76,3 anos.

Conforme Gratton e Scott, na obra The 100-Year Life*, se você está com 60 anos hoje, tem 50% de chance de chegar aos 90 anos. Se está com 40 anos, tem 50% de chance de chegar aos 95 e se tem 20 anos, você tem 50% de chance de viver mais de 100 anos.

Para ter uma ideia, em 1914 a probabilidade de alguém nascido naquele ano viver 100 anos, era de apenas 1%.

O que isso significa?

Para não tornar esse presente do tempo um castigo, você necessitará de um planejamento cuidadoso de seus ativos. Não apenas dos seus ativos tangíveis, como dinheiro e bens materiais, mas também dos ativos intangíveis.

Planejar suas finanças é essencial para uma vida de 100 anos, mas dinheiro está longe de ser o recurso mais importante. Família, amizade, saúde mental e felicidade são componentes essenciais. Muito do debate sobre longevidade e aposentadoria tem se concentrado nas finanças, porém preparar para uma vida longeva é mais do que se preparar financeiramente.

Você não conseguirá manter uma carreira longa e financeiramente bem sucedida se suas habilidades, saúde e relacionamentos estão esgotados. E sem as finanças preparadas, você não poderá gastar tempo para investir nas questões não financeiras essenciais para uma “vida contemplativa”, como dizia Sócrates. O desafio será preparar esses dois ativos de forma equilibrada.

Novo Ciclo de Vida

Os autores afirmam que uma das mudanças acarretadas pela longevidade se refletirá na estrutura de fases das nossas vidas. Até hoje vivenciamos uma vida com 3 estágios mais marcantes.

O estágio da Educação, que ocorre durante nossa infância e adolescência, o estágio do Trabalho, que marca a nossa entrada na vida adulta e por último o estágio da Aposentadoria, que representa a nossa Terceira Idade.

Com o aumento da expectativa de vida haverá uma necessidade de mudança nessa estrutura, a fim de que não ocorra uma sobrecarga em um desses estágios. Se mantivermos a idade de aposentadoria fixa, teremos que fazer um esforço extra para acumular os recursos financeiros necessários ou não teremos recursos suficientes para viver os anos extras. Teremos que trabalhar mais tempo, mas o trabalho não precisa ser uma atividade frenética, cansativa e opressiva.

Passaremos a vivenciar uma mescla desses estágios ao longo de nossas vidas. Iremos experimentar uma vida com uma maior variedade de empregos, com períodos de paradas e transição, retorno à fase de educação para a ampliação do conhecimento e preparação para novas profissões e desafios. Dessa forma, conseguiremos nos preparar e estender o prazo para uma transição definitiva ao estágio final de aposentadoria.

Por que isso irá ocorrer?

Em épocas passadas de vida mais curta, o mercado de trabalho era relativamente estável, fazendo com que o conhecimento e habilidades que uma pessoa conquistasse aos seus 20 anos fosse o suficiente para manter a sua carreira sem maiores investimentos.

Nos dias atuais, com o mercado de trabalho mais dinâmico em constantes e rápidas mudanças, para se manter atualizado até os seus 70, 80 anos será necessário dedicar períodos e recursos para fazer investimentos fundamentais em reaprendizado e requalificação. Com isso, o estágio da educação que historicamente ocorria na primeira fase da nossa vida, irá se ampliar e passará a estar presente ao longo de toda a nossa jornada.

As horas a mais de vida que a longevidade nos proporcionará deverá ser utilizada de forma equilibrada entre o aumento do tempo disponível para o lazer, o trabalho e a educação.

Este equilíbrio será necessário pois ninguém conseguirá nem desejará trabalhar sem parar de forma intensa e contínua até seus 70, 80 anos. Será necessário intercalar ao longo do tempo momentos de recriação(educação) e recreação(lazer) para viabilizar esse alongamento na nossa expectativa de vida e manter um equilíbrio saudável entre os ativos tangíveis e intangíveis.

Ativos Intangíveis – Dando significância a uma vida longa

De acordo com a obra os ativos intangíveis, os não-financeiros, desempenham um papel crucial em toda nossa vida. Embora o dinheiro seja realmente importante, não é um fim em si mesmo. Ganhamos dinheiro pelo que ele pode nos oferecer.

Para a maioria das pessoas, uma boa vida seria aquela com uma família solidária, grandes amigos, fortes habilidades e conhecimentos e boa saúde física e mental. Estes são ativos intangíveis e não é surpreendente que sejam tão ou mais importantes que os ativos financeiros quando se trata de construir uma longa vida produtiva. Eles são interdependentes e desempenham um papel importante e recíproco em seu desenvolvimento, reforçando a importância do equilibro e da sinergia entre eles.

É provável que você não tenha pensado em saúde, relacionamento e conhecimento como um ativo. Um ativo é algo que pode oferecer um fluxo de retorno em um determinado tempo. Embora um ativo possa durar por um bom tempo, eles geralmente sofrem algum tipo de depreciação por isso a necessidade de cuidado, manutenção e investimento. Se não cuidarmos da nossa saúde, das nossas amizades, família e do nosso conhecimento, em algum momento eles irão se deteriorar e deixar de nos oferecer um retorno qualitativo. Assim como fazemos em nossos ativos financeiros, devemos constantemente estar avaliando e investindo nos ativos intangíveis.

Os ativos não-financeiros nos trazem desafios adicionais por seu caráter subjetivo e por não terem muitas vezes uma forma física, o que pode torná-los inestimáveis e impossíveis de negociar. Ao contrário de uma casa ou um carro, não podemos comprar um amigo, saúde e conhecimento.

Eles também não são substituíveis nem reversíveis. Se você mudar de país, não poderá vender um amigo e “adquirir” outro em um novo lugar, e se o conhecimento que você dominou não for mais valioso, não pode ser simplesmente vendido e novas habilidades compradas. Isso demonstra a importância de um planejamento na construção e relação com seus ativos intangíveis.

Os principais ativos intangíveis que precisam de cuidado e investimento ao longo de uma vida longeva são os ativos produtivos, de vitalidade e de transformação.

Os ativos produtivos são aqueles que nos manterão a produtividade no trabalho, aumento de renda e perspectiva de carreira como as habilidades e conhecimentos que adquirimos ao longo da vida.

Os ativos de vitalidade são aqueles que nos fazem sentir felizes e realizados, motivados e positivos, como saúde física e mental e relacionamentos.

E finalmente os ativos de transformação são aqueles que irão refletir nossa capacidade e motivação para alcançar com sucesso as mudanças e transições que a longevidade irá nos impor. São ativos que envolvem o autoconhecimento, bom relacionamento e proatividade que irão aumentar a capacidade de lidar com as incertezas da transição e reduzir os custos e riscos dessa mudança.

Ativos Tangíveis – Financiando uma vida longa

Aqui tratamos do dinheiro e seu papel em uma vida longeva. Mesmo sendo um ativo mensurável, traz um enorme desafio no que tange a sua previsibilidade e capacidade de planejamento de longo prazo.

De quanto você precisa para viver e por quanto tempo?

Por quanto tempo você quer trabalhar?

O que você gostaria de fazer na aposentadoria?

O quão disposto você está disposto a renunciar a algo do seu “eu presente” em favor do seu “eu futuro”?

Saber o que você quer e ter uma ideia do seu plano de vida bem como estar disposto a fazer o que for necessário requer autoconhecimento, envolve questões difíceis e muita disciplina.

Preparar-se para uma vida longeva significa transferir dinheiro de hoje para o futuro, e a maioria das pessoas acha difícil encontrar disciplina e uma conexão estreita entre seu eu atual e seu eu futuro. Essas questões precisam ser enfrentadas para não correr o risco de entrar na velhice com recursos insuficientes ou mesmo se encontrar na meia-idade sem as economias que precisa para promover uma pausa ou uma requalificação na carreira.

Precisamos ser realistas na elaboração dos planos financeiros e adquirir autocontrole e disciplina para equilibrar as necessidades atuais com as necessidades futuras. Renunciar aos prazeres de curto prazo e consumo desenfreado, em favor de compromissos de longo prazo.

Pesquisas com aposentados mostram que a maioria gostaria de ter economizado mais para a sua aposentadoria. As perguntas que você deve se fazer são as seguintes:

O que o seu eu de 70 ou 80 anos pensaria de você agora?

Será que aprovaria as decisões que você está tomando hoje?

Desafios e Oportunidades

Criar um senso de identidade ao longo de uma vida longa, que reconheça as interações entre você hoje e seu eu futuro, é um componente crucial para uma vida longeva de sucesso. Proteja o seu eu mais velho!

De que forma você pretende utilizar esses anos extras que a longevidade irá lhe proporcionar?

Irá trabalhar muitas horas para converter o seu tempo em dinheiro, fará aulas e converterá seu tempo em novas habilidades, ou apenas ficará deitado curtindo as redes sociais ou assistindo televisão?

Espero e sugiro que utilize esse tempo de forma equilibrada e desde já, trabalhando para construir seus ativos financeiros, desenvolvendo suas habilidades, dedicando um tempo para a leituras que ampliem sua visão, para família e amigos, para trabalhos voluntários, cuidando sua saúde física e mental, tirando férias, ampliando sua rede de relacionamentos e sua atuação social, explorando diferentes carreiras e diferentes formas de vida.

O planejamento e preparação serão decisivos para garantir que o fluxo de uma vida longeva não destrua seus ativos financeiros e sobretudo dos ativos intangíveis. Sozinho pode parecer assustadora essa tarefa. Não fomos educados para isso. Você pode contar com a ajuda de um Planejador Financeiro e de Vida que irá lhe acompanhar nessa jornada em busca de uma vida equilibrada e alinhada com seus objetivos de curto, médio e longo prazo.

Ficou curioso para preparar melhor seu “eu futuro”? Que tal batermos um papo sobre isso?

*GRATTON L.; SCOTT A. The 100-Year Life. Living and Working in an Age of Longevity. Editora Bloomsbury Information, 2016.

Quer ajuda para colocar isso em prática?

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