Gabriel Pereira
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14 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Quanto do seu dinheiro é decidido pela emoção?

Você abre o aplicativo do banco alguns dias depois de uma semana pesada e se pergunta: onde foi parar o meu dinheiro?

Não teve viagem. Não teve compra grande. Não tem nada concreto para apontar o dedo. Só o saldo, menor do que deveria estar.

Ninguém sentou para decidir aquilo. E, ainda assim, foi decidido. Eu vou começar por uma opinião que pode parecer polêmica: isso quase nunca é falta de disciplina. É a emoção decidindo no lugar dos números.

A parte técnica é a mais fácil

Ser consultor financeiro tem muito de cálculo: descobrir quanto você precisa juntar, em quanto tempo, quanto colocar em cada tipo de investimento. É o que quase todo mundo imagina quando pensa no meu trabalho, e é a parte fácil.

Só que, depois de atender centenas de famílias na vida real, eu preciso admitir: fechar esses números direito não é o que garante que a pessoa chegue lá. O que pesa muito mais é o lado emocional, o jeito como cada um se comporta com o próprio dinheiro.

É por isso que um planejamento financeiro pessoal e familiar começa pelos objetivos de vida, e não pelo investimento. A conversa difícil é sobre a vida. É nela que o plano se sustenta, ou desmonta.

Um comportamento que tem nome

A forma mais visível disso tem nome em inglês: doom spending. "Gasto do caos" chega perto, mas nenhuma versão em português captura bem a ideia. Quem popularizou o termo foi a Credit Karma, uma empresa americana de serviços financeiros. A definição dela: gastar mesmo preocupado com a economia, como jeito de aliviar o estresse.

Aqui eu quero fazer uma distinção que, para mim, muda tudo. E falo como consultor, não como pesquisador: o pouco que já se estudou trata esse comportamento como um tipo de compra por impulso, não como o contrário dela. A diferença que eu vejo na prática está no gatilho. A compra por impulso vem de fora: você passa na frente da vitrine e aquele tênis chama atenção. O doom spending vem de dentro. É a ansiedade de fundo, a sensação de que planejar o futuro está tão distante que nem vale o esforço.

A lógica emocional, nem sempre consciente, costuma soar mais ou menos assim:

"Se eu nunca vou conseguir comprar um apartamento mesmo, por que não viver bem agora?"

"A economia está uma bagunça. Poupar para quê?"

"Trabalho tanto, eu mereço isso."

Nenhum desses pensamentos é sem sentido. Eles respondem a coisas reais: preço subindo, vida cara, futuro incerto, e um feed que mistura o sonho dos outros com o desespero de todo mundo.

E o alívio existe mesmo. Em 2014, os pesquisadores Rick, Pereira e Burson mostraram, em uma revista científica de comportamento do consumidor, que escolher o que comprar diminui a tristeza: devolve à pessoa a sensação de estar no controle. O problema não é o alívio. É o prazo dele. Pesquisadores da FGV leram cerca de cem estudos sobre a compra que compensa alguma coisa e descreveram o resto: o que causou o gasto continua onde estava e, na repetição, podem aparecer a dívida e o arrependimento.

E quanto isso pesa, afinal?

Preciso ser honesto com a pergunta do título: ninguém mediu isso no Brasil.

Em outubro de 2024, a Credit Karma perguntou a mil e um adultos americanos se eles se reconheciam nesse padrão. 27% disseram que sim. Entre os millennials foram 39%, e na Geração Z, 37%. É uma pesquisa feita pela internet, em que cada um responde sobre si mesmo, com pouca gente ouvida. Vale como indício, não como medida. E é americana.

Não existe pesquisa brasileira parecida, que meça quantos de nós gastam por ansiedade. Esse número não foi levantado aqui. Quem disser que sabe está chutando.

O que existe no Brasil, e é bem mais duro, é o retrato da dívida. Em agosto deste ano, a pesquisa mensal da CNC, a confederação que representa o comércio, encontrou 82% das famílias com dívidas a vencer. É o maior número já registrado. E quase 30% das famílias brasileiras estão com contas em atraso.

Esses números não medem doom spending. Mas mostram o terreno em que ele cresce. E não é assunto de gente jovem: aparece em qualquer fase da vida em que a pessoa sente que perdeu o fio da meada.

Um caso que me marcou

Atendi um casal, há alguns anos, que vivia essa história quase à risca. Renda boa, estável, e todo mês fechando no vermelho. Nenhuma compra absurda, nenhum vício claro. Só pequenas coisas que, somadas, comiam o mês inteiro.

Quando sentamos para olhar o extrato com calma, o padrão ficou óbvio: os picos de gasto batiam com as semanas de notícia ruim no trabalho. Eles nunca tinham percebido essa ligação.

Não era o dinheiro que estava desorganizado. Era a ansiedade procurando uma válvula de escape, e o cartão de crédito sendo a válvula mais à mão. Os números deles estavam certos. O problema nunca esteve neles.

Por onde começar a mudar

Entender o que está acontecendo já é um passo. Depois dele, três movimentos ajudam. Nenhum tem estudo que comprove a eficácia, e prefiro dizer isso a vender certeza: vêm da prática de consultório, não de laboratório.

Primeiro, repare no que acontece antes da compra. O gasto por ansiedade acontece no automático. Por isso, o intervalo entre sentir a vontade e agir é o momento mais valioso. Não é resistir a qualquer custo. É criar uma pausa e uma pergunta: eu quero isso, ou eu estou querendo aliviar alguma coisa?

Segundo, separe os gastos frequentes dos eventuais. Os frequentes são os que aparecem todo mês: moradia, mercado, escola, contas de casa. Os eventuais voltam de tempos em tempos, nem sempre na mesma época: o seguro, a viagem, o presente, o conserto do carro.

Quase todo mundo conhece os frequentes de cor e se perde nos eventuais. Como eles não entram no orçamento do mês, quando a hora chega você não está preparado para eles: o dinheiro não foi separado antes, e o que era perfeitamente previsível acaba virando dívida no cartão.

E é aí que o gasto por ansiedade se esconde, porque nunca parece um padrão: cada compra chega sozinha, em um mês diferente, com uma justificativa própria. Só quando você junta um ano inteiro é que o desenho aparece.

Terceiro, deixe espaço para o presente dentro do plano. A armadilha mais comum que eu vejo é um plano apertado demais, sem nenhum espaço para o agora. Se você nunca tem um centavo para gastar com o que gosta, qualquer compra por impulso vira uma válvula de escape necessária.

E tem estudo nessa direção. Mukhopadhyay e Johar, na mesma revista, mostraram que quem lembra que se segurou antes usa isso como desculpa para se permitir o exagero depois. Separar um valor todo mês para gastar sem culpa não é fraqueza. É reconhecer que você é uma pessoa, e não uma máquina de acumular.

Um plano que não tem espaço para quem você é nos dias ruins não chega até dezembro. Ele é abandonado no primeiro mês difícil, e o abandono é lido como falta de disciplina, quando o plano é que foi feito para uma pessoa que não existe.

Eu não sei quanto do seu dinheiro é decidido pela emoção, e você provavelmente também não. Mas essa é uma conta que vale a pena olhar de perto. Que tal olharmos juntos para onde o seu dinheiro está indo, e principalmente para o que ele deveria estar construindo? Vamos conversar?

Quer ajuda para colocar isso em prática?

Agende uma conversa inicial e entenda como um planejamento financeiro personalizado pode te ajudar.

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